Inauguro alterando o post inicial, da própria instalação, e tocando no assunto mais tocante dos últimos dias: o assassinato da Isabella.
O casal, pai e madrasta, foi preso, a pedido do promotor, e deu entrada na cadeia no começo da madrugada.
O ordem de prisão foi expedida ainda antes das seis da tarde de ontem, segundo comentaristas, para poder ser executada no mesmo dia.
Depois da ordem de prisão, recomeçou o circo de sempre. Imprensa e curiosos em todos os locais relacionados com os envolvidos no caso. Manifestações em frente as câmeras, algumas com cara de organizadas por algum diretor de arte dessas emissoras sensacionalistas.
E comentários e mais comentários.
Os mais importantes deles dizem respeito à própria prisão do casal suspeito, que a partir de ontem são considerados réus.
A maioria dos especialistas acredita que essa prisão, ou essas prisões, não se justificam e não duram mais que essa noite que passou.
O argumento é que só há dois motivos para uma prisão preventiva: flagrante, o que não houve, e tentativa de atrapalhar as investigações, o que também não houve, e nem poderia mais haver, uma vez que as investigações já terminaram.
Deve haver, claro, outros motivos, não tão conhecidos pelos leigos, para justificar prisões desse tipo.
Um deles poderia ser a tentativa, por parte do suspeito, ou do réu, de manipular a opinião pública a seu favor, coisa que poderia influir num futuro possível julgamento pelo tribunal do juri.
Seria esse o caso do casal Nardoni?
Outro argumento que, dizem, poderia embasar o pedido e a própria prisão preventiva, seria a “comoção social”. Parece que o promotor alegou isso, provavelmente entre outras coisas.
Do que se trata então? Prende-se pelo fato de a sociedade assim o querer? Como se afere isso?
Ou prende-se para proteger os réus suspeitos do crime? Nesse caso, não seria necessária a concordância deles?
Esse caso brutal está caminhando, cada vez mais, para o império do absurdo.
Os evidentes erros da polícia não se coadunam com o extremo rigor atribuído a seus laudos.
Qualquer pessoa que tenha mais de um celular, de operadoras diferentes, sabe que o horário deles nem sempre bate, há diferenças, às vezes, de até dois minutos.
No entanto, a polícia, a parece que também a promotoria, trabalham com um tempo máximo de treze minutos e tanto, quase quatorze minutos, entre a chegada da família ao prédio onde residiam e a comunicação aos bombeiros de que havia um corpo no gramado.
Esses treze ou quatroze minutos foram calculados usando horários recolhidos em diferentes “relógios” ou sistemas. O do sistema de rastreamento do carro do casal e o do sistema de uma operadora de telefonia celular.
Foram levadas em conta eventuais disparidades? Pelos erros primários que cometeu a polícia nesse caso, pode-se perguntar até se aferiram se o sistema de rastreamento não estaria ainda com seu horário registrado ainda no “horário de verão”.
Um dos principais elementos para a suposição de que só o casal poderia ter cometido o crime é exatamente esse exíguo tempo de quatorze minutos.
A polícia ainda avaliou ser possível descontar dois ou tres deles, passando a trabalhar com onze minutos entre o desligamento do carro e a queda da menina.
Ora, nesses onze minutos talvez nem fosse possível acontecer o que de mais eles relatam em sua hipotética “reconstrução”. A não ser que a menina já viesse morta ou desfalecida, e o “plano ” de jogá-la do apartamento já estivesse devidamente traçado.
Se assim foi, se a menina foi agredida no carro, durante o trajeto até o prédio, há que se investigar, através do mesmo sistema de rastreamento, qual foi o percurso que o carro fez até a chegada ao trágico destino.
Deveriam estudar o trajeto, a última vez que o carro foi desligado antes de chegar à garagem, a última vez que foi ligado antes disso, as últimas vezes todas que o carro foi ligao e desligado naquele dia.
Deveriam ter levantado se houve algum tempo em que o carro ficou parado no percurso até o prédio, em que velocidade se deram os últimos deslocamentos, e por aí afora. Tudo isso poderia ser obtido lá na mesma rastreadora de carros.
O mesmo vale para os celulares do casal e de seus familiares, quais foram as últimas ligações que fizeram e que receberam? Qual a duração de cada uma delas?
Todos os indícios apontam na direção do casal. Mas são poucos indícios ainda. A polícia perdeu, talvez para sempre, a possibilidade de levantar muito mais coisas. E esses poucos indícios são frágeis demais, poderão ser destruídos, um a um, pela defesa.